X. SÍNDROMES HEREDITÁRIAS

Definição: Síndrome: conjunto de sinais e sintomas provocados por um mesmo mecanismo.


O Cariótipo Normal

Normalmente, os cromossomos se apresentam aos pares, numerados de 1 a 22, mais o par sexual (XX ou XY).

Cada par tem seu tamanho e sua forma característica. As anomalias do cariótipo se caracterizam por alterações do número de cromossomos nos pares (ver os esquemas respectivos).

O cariótipo (carion = núcleo) representa o genoma (total de genes) do indivíduo. Na espécie humana, o número de cromossomos do cariótipo é de 46. As alterações ou aberrações cromossômicas produzirão modificações importantes nas características do indivíduo portador dessas alterações.

Aberrações Cromossômicas

Para serem reconhecidas ao microscópio, com as técnicas normais de coloração, as aberrações cromossômicas devem ser anomalias numéricas ou anomalias estruturais evidentes. Qualquer alteração estrutural envolvendo menos de 1/10 do braço de um cromossomo será detectável mesmo sob condições ideais de preparação e microscopia.

Os pacientes com aberrações cromossômicas normalmente têm fenótipos característicos, muito semelhantes ao de outros pacientes com a mesma anomalia. As anomalias fenotípicas têm sua base na perturbação do desenvolvimento, resultante do desequilíbrio do material genético.

Abriu-se uma nova era na Genética Médica, em 1959, com a demonstração por Lejeune e Turpin de que as crianças com mongolismo, ou síndrome de Down, têm 47 cromossomos em cada célula do corpo, ao invés de 46 normais.

As anomalias citogenéticas são muito mais freqüentes e variadas nas clínicas médicas do que se pensava antes. As aberrações cromossômicas são causa significante de defeitos congênitos e abortos, ocorrendo aproximadamente 0,7% dos que nascem com vida e um terço dos abortos espontâneos de primeiro trimestre.

As translocações, nas quais todo o material genético está presente, mas em disposição anormal, não estão necessariamente associadas com fenótipos anormais.

Trissomia (presença de três representantes de um determinado cromossomo, ao invés de um par normal) é o termo geral usado para descrever o tipo comum de aberração cromossômica encontrada na síndrome de Down.

A trissomia tem sido demonstrada em um grande número de espécies de plantas. Semelhante problema ocorre no homem, onde existe um fenótipo anormal característico para cada trissomia autossômica e um fenótipo um pouco menos distinto para a trissomia de cromossomos sexuais.

Embora em quaisquer dos membros de uma mesma espécie, a maioria dos genes em um determinado cromossomo seja provavelmente idêntica, cada um de nós porta uma quantidade de genes variáveis, que são genes para poliformismos comuns ou mutações raras.

Portanto, a semelhança fenotípica geral dos indivíduos com uma aberração cromossômica específica, tal como a síndrome de Down, é modificada por diferenças individuais relacionadas ao genótipo.

Síndromes Hereditárias

As principais anomalias humanas são:
a) SÍNDROME DE DOWN OU MONGOLISMO: Cariótipo 47,21 + (trissomia do cromossomo 21);
b) SÍNDROME DE PATAU: Cariótipo 47,13 + (trissomia do cromossomo 13);
c) SÍNDROME DE EDWARDS: Cariótipo 47,18 + (trissomia do cromossomo 18);
d) SÍNDROME DO CHORO DE GATO: Deleção do cromossomo 5 (modificação estrutural);
e) SÍNDROME DE TURNER: Cariótipo 45,XO (monossomia do sexual X); fenótipo feminino, sem cromatina sexual;
f) SÍNDROME DE KLINEFELTER: Cariótipo 47,XXY (trissomia sexual); fenótipo masculino; uma cromatina sexual;
g) SÍNDROME DO POLI-X: 47,XXX ou 48,XXXX (trissomia ou tetrassomia do X); fenótipo feminino; duas ou três cromatinas sexuais;
h) SÍNDROME DO DUPLO Y: Cariótipo 47,XYY (trissomia sexual); fenótipo masculino, sem cromatina sexual.

a. Síndrome de Down (Trissomia do 21 ou Mongolismo)



Síndrome de Down é a mais comum e a melhor conhecida das anomalias cromossômicas. A condição foi primeiro descrita por Langdon Down em 1866, mas a sua causa permaneceu um profundo mistério por quase um século.

Existem duas características marcantes na distribuição da síndrome de Down na população: idade materna avançada e uma distribuição peculiar em gêmeos e famílias (concordância em todos os gêmeos monozigóticos, mas discordância quase completa em gêmeos dizigóticos e outros parentes).

Foi sugerido por Waardenburg, em 1932, que uma anomalia cromossômica poderia explicar estas observações, mas a anomalia cromossômica não foi demonstrada até 1959, quando Lejeune e Turpin mostraram que uma criança mongolóide tinha 47 cromossomos, sendo o cromossomo extra um pequeno acrocêntrico, agora convencionalmente tido como o 21.

O antigo nome "mongolismo" refere-se às características de aspecto oriental produzidas pelas pregas epicânticas, as quais dão aos olhos uma aparência oblíqua. Atualmente é mais conhecida por Síndrome de Down e Trissomia do 21.

Seus principais sinais característicos são: hipotonia, retardo mental (Q.I. na faixa de 25-50); braquicefalia com ocipúcio achatado; pregas epicânticas, íris pontilhada; nariz: ponte baixa; língua: usualmente saliente, sulcada, sem a fissura central; mãos curtas e largas, com uma única linha palmar (linha simiesca) e clinodactilia (encurvamento) do quinto dedo; pés: um largo espaço entre o primeiro e o segundo dedo, um sulco se estendendo para trás ao longo da superfície plantar; Anomalia cardíaca em cerca de 35%; ângulos acetabular e ilíaco diminuídos; estatura abaixo da média.

Freqüentemente, o diagnóstico não apresenta nenhuma dificuldade particular, mas a cariotipagem é normalmente indicada para determinar se a criança tem um cariótipo típico de trissomia do 21 (95% dos casos), é um mosaico (1% dos casos) ou tem uma translocação (4% dos casos).

b. Trissomia D (Trissomia do 13) - Síndrome de Patau

A trissomia para um cromossomo do grupo D é menos comum que a trissomia do 18, talvez porque as anomalias associadas com trissomia para este cromossomo sejam mais severas. Um paciente típico apresenta defeitos no sistema nervoso central e, embora variáveis, eles são severos e estão associados a retardo mental.

As anomalias externas mais óbvias incluem lábio leporino e palato fendido, polidactilia e anomalias características dos padrões dérmicos. Também estão presentes anomalias cardíacas, viscerais e da genitália.



c. Trissomia do 18 (Síndrome E)




A trissomia do 18 é uma síndrome de malformações congênitas múltiplas, associadas com a trissomia de um cromossomo do grupo E, o nº 18.

A síndrome foi primeiramente descrita por Edwards e colaboradores, em 1960. É mais severo que a síndrome de Down e a maioria das crianças afetadas morre por volta dos seis anos de idade.

Alguns dos estigmas característicos da trissomia do 18, além da anomalia cromossômica, são: Retardo mental; não desenvolvimento; excesso de mulheres (78%); orelhas: implantação baixa e malformadas; mãos: fechadas, com o segundo dedo superpondo o terceiro e o quinto superpondo o quarto, uma única linha palmar (linha simiesca), arcos em seis ou mais dedos; pés tortos; coração: tipo característico de malformação.

d. Síndrome do Choro do Gato


É chamado de Síndrome do cri du chat (choro do gato), por causa da semelhança do choro da criança com um miado de gato. As crianças afetadas têm retardo mental, são microcefálicas, têm um aspecto facial característico com hipertelorismo marcante e têm padrões dérmicos característicos.

Essa síndrome pode ocorrer na prole de um portador de translocação que formou um gameta não balanceado com uma deficiência. Na mesma família, podem ser encontrados pacientes com a correspondente duplicação.

Pode ser uma monossomia parcial do cromossomo 5 (5p-) ou do nº 4 (4p-), sendo este último mais raro do que o anterior. Esta produz um fenótipo anormal diferente e muito mais severo, com baixo peso de nascimento, desenvolvimento anormal, coloboma da íris, aspecto facial anormal e muitos outros defeitos. As crianças do segundo caso não têm o miado de gato da síndrome do cri du chat.

e. Síndrome de Turner (Disgenesia Ovariana)

A síndrome de Turner é uma anomalia caracterizada por uma monossomia (falta de um cromossomo) do cromossomo X. É o único caso de monossomia no qual a pessoa afetada sobrevive. Sua ocorrência está em torno de uma criança em 5000 nascimentos, devendo-se acrescentar que muitos fetos com essa anomalia não chegam ao final da gravidez.

A Síndrome de Turner é resultante de uma não-disjunção, e o estudo com marcadores de um antígeno chamado XG, ligado ao sexo, mostra que, em 75% dos casos, o erro ocorre na gametogênese paterna.

A pessoa afetada é uma mulher com cariótipo 45,XO, não apresentando, portanto, a cromatina sexual. Tem baixa estatura, infantilismo sexual e, com freqüência, uma série de outros defeitos, entra os quais: tórax largo em barril, pescoço alado (com pregas cutâneas bilaterais), malformação das orelhas etc.


f. Síndrome de Klinefelter

As pessoas afetadas pela Síndrome de Klinefelter são indivíduos de fenótipo masculino com hipodesenvolvimento do pênis e dos testículos, desenvolvimento de glândulas mamárias (ginecomastia) e distribuição de gordura e pêlos idêntica à da mulher.

Apresentam cromatina sexual, devido ao cariótipo 47,XXY, que é resultado de uma não-disjunção. O estudo com antígeno XG mostra que 2/3 dos casos são decorrentes de não-disjunção na meiose materna.

Nesses casos, demonstrou-se que a idade avançada da mãe está correlacionada com a ocorrência da anomalia.


g. Síndrome do Poli-X

Há casos de mulheres que apresentam número aumentado de cromossomos X, podendo aparecer cariótipos 47,XXX, 48,XXXX, 49,XXXXX. As mulheres 47,XXX são aparentemente normais, havendo alguns casos de retardo mental e distúrbio menstrual. Essas mulheres (XXX) apresentam duas cromatinas sexuais.

As mulheres com quatro X ou mais já possuem com maior freqüência anomalias, que se agravam à medida que o número de X aumenta, aumentando também o número de cromatinas sexuais. Esta síndrome tem uma freqüência de um em 2000 nascimentos.

h. Síndrome do Duplo Y

São casos de homens com cariótipo 47,XYY. A freqüência dessa anomalia é de duas ocorrências em cada mil nascimentos. Verificou-se, porém, que, entre criminosos, essa freqüência chega a 3%. Os homens afetados não apresentam anormalidades específicas, a não ser estatura acima da média da população.


Nota: Cromatina sexual ou corpúsculo de Barr, corpúsculo presente junto à cariomembrana, bem corável, e só presente nas mulheres. Importante para o diagnóstico do sexo genético num pseudo-hermafrodita.
O número de corpúsculo de Barr = nº de cromossomo X - 1. Nas fêmeas normais = a 2X -1 = 1.

Texto Doutrinário: O Bebê Atípico e a Cruz.

Esse pequeno ser, mirrado e disforme, carregado ao colo em situação de dependência, é, contudo, a mola central de profundas modificações no grupo familiar. Modificações horizontais e verticais. Exatamente como as cruzes levadas ao Gólgota: a cruz do bom ladrão, a do mau ladrão e a do Mestre Jesus.

No primeiro momento de vida física, começa a modificação. Acabou de nascer e frustrou todas as expectativas. Porque os seres humanos esperam situações, coisas e formas padronizadas, estereotipadas, repetitivas, e sempre subsiste, da parte dos expectadores, a espera da suprema superioridade quando se trata de coisas suas.

Então o bebê atípico é um choque tanto mais tremendo quanto maior o orgulho existente à sua volta. Hora por hora, ele, o bebê subgente, propulsiona a roda das transições e carrega para o movimento, sozinho, todo o seu ambiente.

Conhecemos muitas famílias que se desajustaram por causa dele, ou melhor, por causa da própria imaturidade da família, sendo "ele" apenas o desencadeador ou o pretexto.

Pintemos o quadro: o pai, ante a necessidade legal e moral de transmitir seu nome e seus bens a esse herdeiro, de mostrá-lo como produto seu, desespera-se. Alguns se entregam à bebida. Outros escondem o filho ou se escondem. Outros abandonam o lar. Alguns chegam a matá-lo, como os jornais literalmente dão testemunho. A mãe, ferida em seu amor próprio, se artificializa, atingindo a superproteção ou a neurastenia.

Algumas provocam, por meios indiretos, reações orgânicas em si mesmas, que desmoronarão a saúde, infernarão a convivência social e encurtarão o tempo de vida. Outras permanecem em estado de tensão, sempre em atitude defensiva, achando que a vida (ou Deus) as agrediu brutalmente. Perguntam a si mesmas: - Mas por que justamente comigo?! Outras fogem da realidade, através da inércia nos dias e dos comprimidos soníferos para as noites.

É a cruz jogada no chão. Os dois braços vergados sob o peso das angústias e sob a compressão dos pés que pisoteiam o madeiro desprezível. O eixo vertical fica deitado no solo, não sobe. O braço superposto na horizontal se quebra, porque é menor e não tem, por si mesmo, a força de equilíbrio necessária. Então, o vento das alvoradas e o frio dos anoiteceres enterram aos poucos a cruz.

O pequenino ser, de cinqüenta centímetros de comprimento, aquele que trouxe a cruz para vê-la de pé, só conseguiu o inverso: esmagou a experiência dos adultos - pais, avós, irmãos - e todos se curvaram para o solo, se apequenaram e fecharam o próprio potencial interior. Por falta de alimento afetivo, é provável que o bebê volte à pátria espiritual precocemente e, então, todos suspirarão aliviados sem entenderem o significado do acontecido.

Mas há outro tipo de cruz que o mesmo tipo de bebê pode oferecer a outro tipo de gente: Conhecemos, também, muitos e muitos casos assim. São os que têm a maturidade suficiente para saber sempre que, aquilo que acontece no mundo a qualquer um, pode também acontecer a eles mesmos. Sentem a solenidade, a seriedade e a grandeza da vida. Sabem, conscientemente ou não, quais os fins das existências na Terra. Confiam na Sabedoria das situações. Encaram cada dificuldade como um desafio e cada problema como um motivo de crescimento, porque acham que no esforço da solução está o cerne da vitória.

Sabemos de famílias que se ajustaram em níveis de profundidade afetiva, social e moral, exatamente com a presença do bebê atípico. Substituiu a futilidade, a leviandade, a superficialidade, pela reflexão, pela decisão, pelo compromisso que dignifica.

Pintemos o quadro: o pai encontra um objetivo definido e uma motivação a mais para firmar sua posição no núcleo familiar. Aceita o desafio e sente que cresceu para receber tal crédito de confiança. A mulher abre seu coração e refloresce para um amor mais amplo. Pensa nos outros. Valoriza sua função e abre as portas de sua casa com mais prontidão. Ambos, pai e mãe, se agradecem, mesmo tacitamente, porque juntos tudo será fácil. Os irmãos aprendem, desde pequenos, a se ajudarem e treinam suas possibilidades para tarefas mais amplas nos contextos sociais.

A cruz chegou trazida pelo bebê e foi conduzida lentamente, pelo caminho estreito, até o Gólgota. Nesse caminho, houve, às vezes, desfalecimentos, mas, então, foram procurados os Cirineus e, procurando, eles foram achados. Então, de repente, a cruz se levanta e seus braços estão nas direções certas: progresso na horizontalidade do convívio social, em nível de fraternidade e expansão do sentido de família. Progresso na direção vertical, em busca do encontro com Deus.

Estas duas situações, ambas reais, têm como ponto propulsor, como núcleo central, a presença do bebê disforme, insignificante como pessoa, subgente e atípico.

Ressaltamos que, no mundo inteiro, as pessoas que colocaram a cruz de pé são as que estão impulsionando a ciência, a técnica e o amor em favor dos milhares de atípicos da Terra.

A maioria dos hospitais especializados, das fundações científicas, dos institutos organizados, dos grupos de pesquisa e dos centros de reabilitação é formada ou foram iniciados por gente que tem envolvimento direto e afetivo com esse tipo de bebês. São como que respostas à mensagem dos pequeninos.

As associações internacionais em favor do progresso científico dos excepcionais emergiram da pressão do amor dos que levantaram suas cruzes. Então pensamos que e conclusão de tudo isso é a seguinte: embora marginalizados, sem posições definidas nos grupos sociais complexos, rejeitados e incapacitados para as participações plenas, eles, os bebês atípicos, estão também exercendo influência nos grupos em que nascem e, pela força inevitável dos entrelaçamentos grupais, em toda a família humana". (AS AVES FERIDAS NA TERRA VOAM).

Expectativa, Frustração, Revolta

"Quando a mulher engravida, há no lar ansiosa expectativa. Todos torcem para que, acima de tudo, nasça uma criança saudável, física e mentalmente. Se ocorrer um problema congênito, sobrevém a frustração e o sofrimento, marcados, não raro, por incontida revolta".

Pudessem as personagens desses dramas entender que nada ocorre por acaso e que as crianças com problemas são Espíritos em reajuste, como um doente submetido a tratamento, e não se perturbariam tanto, reconhecendo no filho deficiente uma abençoada tarefa que Deus lhes confiou".



Bibliografia:
1. MEDICINA E SAÚDE (Revista), Abril S/A, volume V;
2. HUMAN GENETICS, de Reginald Ruggles Gates, The MacMillan Company, 1948;
3. GENÉTICA MÉDICA, de Thompson/Thompson, Cap. VI;
4. AS AVES FERIDAS NA TERRA VOAM, de Nancy Puhlmann, Cap. 10;
5. ENCONTROS E DESENCONTROS, Richard Simonetti, um filho muito especial.