XII. A HEREDITARIEDADE E AS APTIDÕES

As Crianças Prodígio

- Freqüentemente, os pais transmitem aos filhos a parecença física. Transmitirão alguma parecença moral? - "Não, que diferentes são as almas ou espíritos de uns dos outros. O corpo deriva do corpo, mas o espírito não procede do espírito. Entre os descendentes das raças apenas há consangüinidade". (L.E. 207).

- Donde se originam as parecenças morais que costuma haver entre pais e filhos? - "É que uns e outros são espíritos simpáticos, que riciprocamente se atraíram pela analogia dos pendores". (L.E. 207-a).

- Encarnado, conserva do espírito algum vestígio das percepções que teve e dos conhecimentos que adquiriu nas existências anteriores? - "Guarda vaga lembrança, que lhe dá o que se chama idéias inatas".(L.E. 218).

- Qual a origem das faculdades extraordinárias dos indivíduos que, sem estudo prévio, parecem ter a intuição de certos conhecimentos: o das línguas, do cálculo, etc? - "Lembranças do passado, progresso anterior da alma, mas de que ela não tem consciência. Donde queres venham tais conhecimentos? O corpo muda; o espírito, porém, não muda, embora troque de roupagem". (L.E. 219).

"Cada criatura vive num carro celular diferente, apesar das peças semelhantes, impostas pela lei das formas. No círculo de matéria densa, sofre a alma encarnada os efeitos da herança recolhida dos pais; entretanto, na essência, a lei da herança funciona invariavelmente do indivíduo para ele mesmo. Detemos tão somente o que seja exclusivamente nosso ou aquilo que buscamos. Renascemos na Terra, junto daqueles que afinam com o nosso modo de ser". ("Entre a Terra e o Céu", pág. 78).

"A hereditariedade é dirigida por princípios de natureza espiritual. Se os filhos encontram os pais de que precisam, os pais recebem da vida os filhos que procuram". (Idem).

Tem-se visto filhos de boa família cometerem roubos, atearem incêndios, praticarem crimes com a audácia e habilidade consumadas, sofrerem condenações e desonrarem o nome que usavam; em certas crianças, citam-se atos de ferocidade sanguinária que não encontram explicação nem nos seus próximos parentes, nem na sua ascendência. Adolescentes, por exemplo, matam os animais domésticos que lhes caem nas mãos, depois de os terem torturados com rematada crueldade. Em sentido oposto, podem registrar-se casos de dedicação, extraordinários pela idade dos que os praticam; salvamentos são efetuados com reflexão e decisão por crianças de dez anos e de menos idade. Tais indivíduos, como os precedentes, parecem trazer para este mundo disposições particulares que não se encontram nos seus parentes. Assim como se veêm anjos de pureza e doçura nascerem e crescerem em meios grosseiros e depravados, assim também se encontram ladrões e assassinos em famílias virtuosas, num e outro caso em condições tais que nenhum precedente atávico pode dar a chave do enigma.

Todos estes fenômenos, na sua variedade infinita, têm sua origem no passado da alma, nas numerosas vidas humanas que ela percorreu; cada um traz, ao nascer, os frutos da sua evolução, a intuição do que aprendeu, as aptidões adquiridas nos diversos domínios do pensamento e da obra social, na ciência, no comércio, na indústria, na navegação, na guerra, etc; traz habilidade para tal coisa de preferência a tal outra, segundo a sua atividade se exercitou num ou noutro sentido. O espírito tem capacidade para os estudos mais diversos; mas, no curso limitado da vida terrestre, por efeitos das condições ambientes, por causa das exigências materiais e sociais, geralmente só se aplica ao estudo de um número restrito de questões e, desde que sua vontade se encaminhou para qualquer dos vastos domínios do saber, em razão das tendências e das noções em si acumuladas, sua superioridade neste sentido declara-se e define cada vez mais; repercute de existência em existência, revelando-se, em cada vinda à arena terrestre, por manifestações cada vez mais precoces e mais acentuadas.

Daí, as crianças-prodígio e, em forma menos distinta, as predisposições nativas; daí, o talento, o gênio, que são o resultado de esforços perseverantes e contínuos para um objetivo determinado". ("O Problema do Ser, do Destino e da Dor", pág. 245/246).

"O trabalho anterior que cada espírito efetua pode ser facilmente calculado, medido pela rapidez com que ele executa de novo um trabalho semelhante, sobre um mesmo assunto, ou também pela prontidão com que assimila os elementos de uma ciência qualquer. Deste ponto de vista, é de tal modo considerável a diferença entre os indivíduos, que seria imcompreensível sem a noção das existências anteriores.

Duas pessoas igualmente inteligentes, estudando determinada matéria, não a assimilarão da mesma forma; uma alcançar-lhe-á à primeira vista os menores elementos, a outra só à custa de um trabalho lento e de uma aplicação porfiada conseguirá penetrá-la. É que uma já tem conhecimento desta matéria e só precisa recordá-la, ao passo que a outra se encontra pela primeira vez dentro de tais questões". (Idem, pág.247).

"O gênio, dizíamos, não se explica pela hereditariedade nem pelas condições do meio. Se a hereditariedade pudesse produzir o gênio, ele seria muito mais freqüente. A maior parte dos homens célebres teve ascendentes de inteligência medíocre e sua descendência foi-lhes notoriamente inferior. Sócrates e Joana D'Arc nasceram de famílias obscuras. Sábios ilustres saíram dos centros mais vulgares, por exemplo: Bacon, Copérnico, Galvani, Kepler, Hume, Kant, Locke, Malebranche, Réaumur, Spinosa, Laplace etc. Jean-Jacques Rousseau, filho de um relojoeiro, apaixona-se pela Filosofia e pelas Letras na loja do seu pai; D'Alembert, enjeitado, foi encontrado na soleira da porta de uma igreja e criado pela mulher de um vidreiro. Nem a ascendência nem o meio explicam as concepções geniais de Shakespeare". (Idem, pág. 247/248).

"Podem-se considerar certas manifestações precoces do gênio como outras tantas provas das preexistências, no sentido de serem uma revelação dos trabalhos realizados pela alma em outros ciclos anteriores. Os fenômenos deste gênero, de que fala a História, ... demonstram que o princípio organizador da vida em nós é um ser que chega a este mundo com um passado inteiro de trabalho e evolução, resultado de um plano traçado e de um alvo para o qual ele se dirige através de suas existências sucessivas. Cada encarnação encontra, na alma que recomeça vida nova, uma cultura particular, aptidões e aquisições mentais que explicam sua facilidade para o trabalho e seu poder de assimilação.

A lei da hereditariedade vem muitas vezes obstar, até certo ponto, a essas manifestações da individualidade, porque é com os elementos que a hereditariedade lhe fornece que o Espírito põe a seu jeito o seu invólucro; contudo, a despeito das dificuldades materiais, vê-se manifestarem-se em certos seres, desde a mais tenra idade, faculdades de tal modo superiores e sem nenhuma relação com as dos seus ascendentes, que não se pode, não obstante todas as sutilezas da casuística materialista, relacioná-las com qualquer causa imediata e conhecida". (Idem, pág. 236).

"Só a lei dos renascimentos poderá fazer-nos compreender como certos Espíritos, encarnados, mostram, desde os primeiros anos, a facilidade de trabalho e a assimilação que caracterizam as crianças-prodígio. São os resultados de imensos labores que familiarizaram esses Espíritos com as artes ou as ciências em que se primam. Longas investigações, estudos, exercícios seculares deixaram impressas no seu invólucro perispiritual marcas profundas que geram uma espécie de automatismo psicológico.

Nos músicos, notadamente, essa faculdade cedo se manifesta, por processos de execução que espantam os mais indiferentes e deixam perplexos sábios como o Prof. Ch. Richet. Existem, nesses jovens, reservas consideráveis de conhecimentos armazenados na consciência profunda e que, daí, transbordam para a consciência física, de modo que produzem as manifestações precoces do talento e do gênio. Posto que parecendo anormais, não são, entretanto, mais do que conseqüência do labor e dos esforços continuados através dos tempos.

É a essa reserva, a esse capital indestrutível do ser, que F. Myers chama consciência subliminal e que se encontra em cada um de nós; revela-se não só no senso artístico, científico ou literário, mas também por todas as aquisições do Espírito, tanto na ordem moral, quanto na ordem intelectual". (Idem, pág.224/245).

"O homem que se estuda e observa, sente que tem vivido e que há de viver; herda de si mesmo, colhendo no presente o que semeou no passado e semeando para o futuro". (Idem, pág.253).

Bibliografia:
1. O LIVRO DOS ESPÍRITOS, de Allan Kardec, Edição FEB, 2/1994, itens citados; 2. ENTRE A TERRA E O CÉU, de F.C.Xavier/André Luiz, Edição FEB, 5/1995; 3. O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR, de Léon Denis, Edição FEB.